Publicado por: donnamaroka em: 23/10/2009
6 da manhã.
Parada de ônibus lotada.
É, seria mais um dia daqueles.
Tráfego intenso em um dia nublado. Era impressão minha ou vinha chuva por ai? Muito azar pra quem na pressa não trouxe o guarda-chuva (mais azar ainda era ter feito escova no cabelo no dia anterior.)
Devagar quase parando lá vinha ele, sofregamente a tão aguardada condução de cada dia.
Ah, é aquela carroça velha novamente! Logo constatei. Tomara que não quebre mais uma vez. Quem era mesmo o político que iria trocar toda a frota de ônibus? Ah, deixa pra lá…
Ao se aproximar do ponto, a manada de gente finalmente estourou rumo ao grande veículo (obsoleto) não sabendo ainda ao certo onde o dito cujo iria parar. Os ônibus sempre encostam muitos metros depois, ou muitos metros antes, do que é previsto pelos passageiros, fazendo com que todos corram ensandecidos e desnorteados. “Motorista sem vergonha” é o que todos no mínimo expressam internamente, uma vez que alcançam a lataria que os levará ao seu destino.
A porta da esperança finalmente se abre e a cavalaria se exprime frente a ela. É cada um por si e a pequena porta para todos.
A gente sempre tenta ser o primeiro a entrar e garantir um lugar digno para ficar, mesmo que não passemos da catraca do cobrador (ir sentado, nem se cogita), mas a conclusão é que de certa forma pensar em lugar digno a essa altura é uma incoerência com a realidade, pois ônibus lotado não é e nunca foi sinônimo de dignidade.
A massa vai então entrando contrariando todas as leis da física e de forma brilhante todos acham um lugar para viajar (dignos ou indignos), e lá estava eu no meu cativo cantinho no primeiro degrau da porta (como sempre). Porque pensar que seria diferente?
- Com licença. – Pediu uma moça gentilmente, a primeira da manada a conseguir entrar no transporte e desafiando nítidamente a lógica do princípio do abarrotamento de gente intransponível. Ela queria a todo custo passar da catraca, e foi pedindo passagem as pessoas com passadas cavalares por cima dos mesmos, contrariando a polidez da sua voz.
As pessoas perdem a educação quando estão em um transporte público, muitas vezes não porque quererem, ou porque são mal educadas, mas é que dadas as circunstâncias uma pisada no pé é quase um cumprimento nessas horas.
Depois de alguns minutos parado, com todos acomodados ou não, o motorista finalmente arranca a ‘big machine’ do asfalto rumo a um triste e já esperado engarrafamento.
Eu, ‘razoavelmente’ conformada, com o peso da experiência que me dava esperanças de que paradas adiante eu logo me sentaria (no acento dos idosos é claro, se não tivesse nenhum para ocupar seus acentos de direito. Outro lugar somente já muito perto do meu destino, e não valeria mais tanto a pena) encostei-me na porta resignada.
A idéia de prosseguir por aquele percurso todo tomado pelo congestionamento não deixaria ninguém muito radiante, ainda mais eu pendurada na ‘porta’ com uma vontade insana de me jogar para fora, talvez no ímpeto de respirar ar puro novamente.
E pensar que aquele dia era somente a segunda-feira…
Bem, certas coisas realmente não são dignas de relatos, peripécias diárias num transporte público nem se fala, mas com bom humor é possível enxergar o lado cômico da vida, mesmo nos momentos que rir seria o ultimo a se pensar em fazer.
Já dizia um velho deitado: quem não tem carro caça com baú lotado.